Split Payment Tributário: Como Funcionará em 2027
Você vende por R$ 1.000, recebe R$ 1.000 na conta, e depois precisa separar dinheiro para pagar os impostos. Esse modelo está com os dias contados. Com o split payment tributário, você vai vender por R$ 1.000 e receber R$ 735 — os R$ 265 de imposto vão direto para o governo, automaticamente, no momento do pagamento.
Parece radical? É. E é também uma das mudanças mais significativas da reforma tributária. O split payment elimina o “float” — aquele período em que o imposto estava na sua conta antes de você recolher. Elimina também a sonegação por não recolhimento, já que o imposto nem passa pela sua mão.
Se você é empresário, precisa entender como isso afeta seu fluxo de caixa, seu sistema de gestão e sua operação. A mudança está prevista para 2027, e a preparação começa agora.
Neste artigo, você vai entender exatamente o que é o split payment, como funciona, quando entra em vigor e como preparar sua empresa.
O Que é Split Payment Tributário
Split payment significa “pagamento dividido”. No contexto tributário, é a divisão automática do valor pago pelo cliente entre o que é do vendedor e o que é do governo.
Como Funciona o Conceito
Modelo atual:
- Cliente paga R$ 1.000
- Loja recebe R$ 1.000
- Loja apura impostos (CBS, IBS, etc.)
- Loja recolhe impostos posteriormente
Modelo com split payment:
- Cliente paga R$ 1.000
- Instituição financeira identifica a operação
- Separa R$ 265 (imposto) e R$ 735 (líquido)
- Loja recebe R$ 735
- Governo recebe R$ 265 diretamente
O imposto nunca passa pela conta da empresa. Vai direto do cliente para o governo, com a instituição financeira fazendo o papel de “agente de retenção”.
Analogia Com o Imposto de Renda
É similar ao que já acontece com salários:
- Empresa paga R$ 10.000 de salário bruto
- Retém IR e INSS na fonte
- Funcionário recebe o líquido
- Impostos vão direto para a Receita
O split payment aplica essa lógica a todas as vendas.
Quem Faz a Retenção
A retenção é feita por quem processa o pagamento:
| Forma de Pagamento | Agente de Retenção |
|---|---|
| Cartão de crédito | Adquirente (Cielo, Stone, etc.) |
| Cartão de débito | Adquirente |
| PIX | Instituição financeira do recebedor |
| Boleto | Banco emissor |
| Transferência | Banco do recebedor |
Importante: Pagamento em dinheiro não passa por split payment, pois não há intermediário financeiro. Isso gera desafios que veremos adiante.
Por Que o Brasil Está Adotando o Split Payment
O split payment não é invenção brasileira. Vários países usam mecanismos similares. Mas por que adotar agora?
Combate à Sonegação
No modelo atual, a empresa recebe o valor cheio e tem a obrigação de recolher o imposto depois. Se não recolher, está sonegando.
Com o split payment:
- Imposto vai direto para o governo
- Empresa não tem como “esquecer” de recolher
- Sonegação por não recolhimento é eliminada
Fim do “Float” Tributário
Hoje, entre a venda e o vencimento do imposto, a empresa tem o dinheiro do tributo em caixa. Algumas usam esse dinheiro como capital de giro.
Com o split:
- Não há período com o dinheiro do imposto em mãos
- Empresa recebe apenas o que é dela
- Menor risco de usar dinheiro do imposto e depois não ter como pagar
Simplificação do Recolhimento
Menos guias para pagar, menos apuração para fazer:
| Aspecto | Modelo Atual | Com Split Payment |
|---|---|---|
| Apuração | Mensal, complexa | Simplificada |
| Guias de pagamento | Várias, por tributo | Automático |
| Risco de atraso | Alto | Praticamente zero |
| Multas por atraso | Comuns | Eliminadas |
Experiência Internacional
Países que usam mecanismos similares:
- Itália (split payment para vendas ao governo)
- Polônia (split payment em IVA)
- Turquia (retenção em cartões)
O Brasil está se inspirando em modelos que já funcionam.
Dado relevante: Segundo estimativas do governo, o split payment pode reduzir a sonegação de IVA em até 30%, aumentando a arrecadação sem aumentar alíquotas.
Como Funciona o Mecanismo na Prática
Vamos detalhar o fluxo operacional do split payment.
Exemplo: Venda no Cartão de Crédito
Situação: Loja vende produto por R$ 1.000, cliente paga com cartão de crédito.
Fluxo com split payment:
-
Loja registra a venda
- Emite NFC-e com valor R$ 1.000
- Tributos: CBS R$ 88 + IBS R$ 177 = R$ 265
-
Cliente passa o cartão
- Adquirente recebe os dados da transação
- Identifica a nota fiscal vinculada
-
Adquirente processa
- Valor bruto: R$ 1.000
- Valor do imposto: R$ 265
- Valor líquido para loja: R$ 735
-
Repasse
- Loja recebe R$ 735 (menos taxa do cartão)
- Governo recebe R$ 265
-
Registro
- Transação fica registrada no sistema do fisco
- Nota fiscal marcada como “imposto recolhido via split”
Exemplo: Venda no PIX
Situação: Cliente paga R$ 500 via PIX.
Fluxo:
- Loja emite NFC-e: R$ 500, impostos R$ 132,50
- Cliente escaneia QR Code do PIX
- Banco do cliente processa:
- Débita R$ 500 do cliente
- Credita R$ 367,50 para a loja
- Credita R$ 132,50 para conta do governo
- Loja recebe o líquido instantaneamente
A Nota Fiscal no Processo
A nota fiscal é o documento que informa o valor do imposto:
- Loja emite NF-e ou NFC-e normalmente
- Nota contém CBS e IBS calculados
- Adquirente/banco usa os dados da nota para fazer o split
- Sem nota, não há como calcular o split
Vinculação nota x pagamento:
- Cada pagamento precisa estar vinculado a uma nota fiscal
- Sistema de pagamento consulta a nota
- Valor do split corresponde ao imposto da nota
Créditos Tributários
E os créditos? Quando você compra algo com imposto, tem direito a crédito.
No split payment:
- Você paga o bruto (com imposto) ao fornecedor
- O split retém o imposto do fornecedor
- Você registra o crédito normalmente
- Na próxima venda, seu imposto a pagar é menor
- O split retém menos (imposto líquido)
Exemplo:
- Comprou mercadoria: R$ 500, imposto R$ 132,50 (crédito)
- Vendeu por R$ 1.000, imposto bruto R$ 265
- Imposto líquido: R$ 265 - R$ 132,50 = R$ 132,50
- Split retém apenas R$ 132,50
Quais Pagamentos Passarão Pelo Split Payment
Nem todo pagamento passa pelo split. Depende do meio utilizado.
Pagamentos Com Split Payment
| Meio | Split? | Agente |
|---|---|---|
| Cartão de crédito | Sim | Adquirente |
| Cartão de débito | Sim | Adquirente |
| PIX | Sim (provável) | Banco |
| Boleto registrado | Sim | Banco |
| Transferência bancária | Sim | Banco |
| Wallet digital | Sim | Instituição de pagamento |
Pagamentos Sem Split Payment
| Meio | Por Quê |
|---|---|
| Dinheiro | Não há intermediário |
| Cheque | Processo de compensação diferente |
| Permuta | Não há fluxo financeiro |
O Problema do Dinheiro
Vendas em dinheiro não passam por split. Isso cria um desafio:
- Loja recebe R$ 1.000 em dinheiro
- Imposto de R$ 265 não foi retido
- Loja precisa recolher depois
Soluções em discussão:
- Recolhimento na hora do depósito bancário
- Guia complementar para vendas em dinheiro
- Incentivos para pagamento eletrônico
Vendas B2B
Vendas entre empresas também passam pelo split:
- Empresa A vende para Empresa B
- Empresa B paga via transferência
- Banco faz o split
- Empresa A recebe líquido
- Empresa B registra o crédito
Atenção: O split payment muda a dinâmica de caixa de toda a cadeia, não apenas do varejo.
Cronograma de Implementação
O split payment faz parte da reforma tributária e segue seu cronograma.
Linha do Tempo Prevista
| Ano | Etapa |
|---|---|
| 2026 | Teste do split em ambiente controlado |
| 2027 | Início do split payment obrigatório |
| 2028+ | Expansão e ajustes |
2026: Período de Teste
- Split payment em fase piloto
- Empresas podem aderir voluntariamente
- Identificação de problemas e ajustes
- Regulamentação final sendo definida
2027: Obrigatoriedade
- Split payment obrigatório para meios eletrônicos
- Integração completa com CBS e IBS
- Sistemas de pagamento adaptados
- Fiscalização ativa
Regulamentação Pendente
Ainda faltam definições:
- Regras detalhadas de vinculação nota x pagamento
- Tratamento de vendas parceladas
- Tratamento de cancelamentos e devoluções
- Regime para pequenas empresas
- Tratamento do dinheiro vivo
A regulamentação completa deve sair ao longo de 2026.
Impacto no Fluxo de Caixa das Empresas
Esta é a mudança mais sentida no dia a dia: você recebe menos.
Antes x Depois
Fluxo atual:
- Dia 1: Vende R$ 1.000, recebe R$ 1.000
- Dia 20: Apura imposto de R$ 265
- Dia 25: Recolhe guia de R$ 265
- Durante 25 dias, R$ 265 estava no seu caixa
Fluxo com split:
- Dia 1: Vende R$ 1.000, recebe R$ 735
- Nunca teve os R$ 265 em caixa
Impacto Prático
| Aspecto | Impacto |
|---|---|
| Recebimento | 26,5% menor (bruto → líquido) |
| Capital de giro | Precisa ser calculado sobre o líquido |
| Planejamento | Mais simples (já recebe o que é seu) |
| Inadimplência tributária | Zero |
Quem Será Mais Afetado
Empresas que usavam o “float”: Quem dependia do dinheiro do imposto para capital de giro sentirá mais.
Empresas com margens apertadas: Precisam ajustar o planejamento de caixa.
Empresas já organizadas: Menor impacto, pois já separavam o dinheiro do imposto.
Como Adaptar o Planejamento
1. Recalcule o capital de giro: Seu recebimento real será menor. Ajuste suas necessidades.
2. Revise o preço: O preço não muda (cliente paga o mesmo), mas seu recebimento sim.
3. Negocie prazos: Com fornecedores, você paga o bruto. Com clientes, recebe o líquido. Equilibre prazos.
4. Separe mentalmente: Pense no faturamento líquido, não bruto. O bruto inclui dinheiro que nunca foi seu.
Reflexão: Empresas bem geridas já separavam o dinheiro do imposto mentalmente. O split payment apenas formaliza isso.
O Que Muda na Nota Fiscal
A nota fiscal ganha novos campos para o split payment funcionar.
Novos Campos na NF-e e NFC-e
| Campo | Descrição |
|---|---|
| indSplitPay | Indicador de split payment (0=Não, 1=Sim) |
| vSplitPay | Valor total a ser retido |
| vCBS_Split | Valor de CBS no split |
| vIBS_Split | Valor de IBS no split |
Informações Necessárias
Para o split funcionar, a nota precisa conter:
- Valor total da operação
- Valor de CBS devido
- Valor de IBS devido
- Valor líquido (para o vendedor)
- Identificação da operação de pagamento (quando disponível)
Vinculação Com o Pagamento
O grande desafio é vincular a nota fiscal ao pagamento:
Pagamento presencial:
- Venda e pagamento acontecem juntos
- Sistema PDV vincula automaticamente
- Adquirente recebe os dados
Pagamento posterior:
- Venda agora, pagamento depois (boleto, por exemplo)
- Boleto carrega dados da nota
- Banco usa esses dados para fazer o split
Pagamento parcial:
- Cliente paga parte agora, parte depois
- Split acontece proporcionalmente
- Sistema precisa gerenciar a divisão
Impacto nos Sistemas
Seu sistema de emissão fiscal precisa:
- Calcular CBS e IBS corretamente
- Preencher os novos campos
- Comunicar com o sistema de pagamento
- Registrar a retenção realizada
Desafios e Pontos de Atenção
O split payment resolve problemas, mas cria outros.
Desafio 1: Cancelamentos e Devoluções
Cliente devolveu o produto. O imposto já foi para o governo.
Solução provável:
- Empresa solicita restituição
- Ou: crédito para próximas operações
- Regulamentação definirá o processo
Desafio 2: Vendas Parceladas
Cliente parcela em 10x. O split é proporcional?
Lógica provável:
- Cada parcela paga carrega sua parte do imposto
- 10 parcelas, 10 splits proporcionais
- Imposto recolhido ao longo das parcelas
Desafio 3: Diferença de Cálculo
Sistema da loja calcula imposto X, adquirente retém Y.
Soluções:
- Padronização de cálculo
- Validação prévia
- Processo de ajuste para diferenças
Desafio 4: Custo de Adaptação
Sistemas de pagamento, bancos, ERPs — todos precisam se adaptar.
Quem paga a conta:
- Adquirentes precisam investir
- Empresas precisam atualizar sistemas
- Curva de aprendizado para todos
Desafio 5: Operações Complexas
- Vendas com vários itens e alíquotas diferentes
- Operações interestaduais
- Serviços com retenção na fonte
- Empresas do Simples Nacional
Cada caso exige regra específica.
Realidade: Os primeiros meses de obrigatoriedade terão ajustes. Quem se preparar antes sofrerá menos.
Como Preparar Sua Empresa
A preparação começa agora.
Passo 1: Entenda Seu Fluxo de Caixa Atual
Mapeie:
- Quanto você vende por mês
- Quanto desse valor é imposto
- Quanto tempo o imposto fica no seu caixa antes de recolher
- Se você usa esse dinheiro como capital de giro
Passo 2: Calcule o Impacto
Com split payment, você receberá aproximadamente 26,5% menos no momento da venda.
Exemplo:
- Faturamento mensal: R$ 100.000
- Hoje recebe: R$ 100.000 (recolhe imposto depois)
- Com split: R$ 73.500 (imposto retido na fonte)
Você tem caixa para operar com R$ 73.500 em vez de R$ 100.000?
Passo 3: Ajuste o Capital de Giro
Se você dependia do “float”:
- Negocie prazo maior com fornecedores
- Antecipe recebíveis (se necessário e viável)
- Reduza estoque ocioso
- Considere linha de crédito de transição
Passo 4: Verifique Seu Sistema
Seu ERP/PDV precisa:
- Calcular CBS e IBS
- Emitir notas com novos campos
- Integrar com sistemas de pagamento
- Registrar retenções
Pergunte ao fornecedor:
- Quando a atualização estará pronta?
- Há custo adicional?
- Haverá treinamento?
Passo 5: Treine a Equipe
Quem precisa entender:
- Financeiro: novo fluxo de caixa
- Faturamento: novos campos na nota
- Atendimento: como explicar ao cliente
Passo 6: Acompanhe a Regulamentação
A regulamentação ainda não está completa. Acompanhe:
- Publicações da Receita Federal
- Notas Técnicas de NF-e
- Comunicados das adquirentes
- Seu contador/consultor tributário
Checklist de Preparação
- Mapeei meu fluxo de caixa atual
- Calculei o impacto do split no meu recebimento
- Avaliei minha necessidade de capital de giro
- Verifiquei se meu sistema será atualizado
- Conversei com meu contador sobre a mudança
- Treinei a equipe financeira
- Estou acompanhando a regulamentação
Perguntas Frequentes
O split payment aumenta os impostos? Não. Os impostos são os mesmos (CBS + IBS). O que muda é o momento do recolhimento.
Vou receber menos do cliente? Não. O cliente paga o mesmo valor. Você recebe menos porque o imposto é retido na fonte.
E se o cálculo do imposto estiver errado? Haverá processo de ajuste. Se reteve a mais, você pede restituição. Se reteve a menos, complementa.
Empresas do Simples Nacional terão split? Depende da regulamentação. Provavelmente terão tratamento específico.
Vendas em dinheiro não terão retenção? Correto. Vendas em dinheiro não passam por split. O imposto será recolhido de outra forma.
Quando isso começa de verdade? A obrigatoriedade está prevista para 2027, mas testes acontecem em 2026.
Conclusão: O Novo Normal do Recolhimento
O split payment tributário representa uma mudança fundamental na relação entre empresas e fisco. Em vez de receber o bruto e pagar o imposto depois, você passa a receber o líquido — o que é efetivamente seu.
Para empresas organizadas, que já separavam mentalmente o dinheiro do imposto, a mudança é mais operacional que financeira. Para quem usava o “float” tributário como capital de giro, o ajuste será mais significativo.
A preparação agora é essencial. Entenda seu fluxo de caixa, verifique seu sistema, acompanhe a regulamentação. Quem se antecipar atravessará a transição com tranquilidade. Quem deixar para depois vai correr.
Seu sistema está preparado para o split payment? Entre em contato com nossa equipe. Vamos avaliar sua operação e garantir que seu ERP esteja pronto para a nova realidade tributária — do cálculo do imposto à integração com os meios de pagamento.